Câmeras de segurança registraram movimentações de pesquisadora e doutorando em áreas restritas, inclusive no laboratório NB-3 sem equipamentos de proteção. Polícia Federal investiga o desaparecimento de pelo menos 24 cepas de vírus.
Imagens de câmeras de segurança incluídas no inquérito sobre o furto de vírus na Unicamp mostram a pesquisadora Soledad Palameta Miller e o marido, o doutorando Michael Edward Miller, circulando por áreas restritas do Laboratório de Virologia e deixando o local com caixas e outros materiais.
Os registros mostram movimentações consideradas atípicas durante a noite, em fins de semana e no recesso acadêmico. Além disso, Michael aparece entrando no laboratório de segurança máxima NB-3 sem os equipamentos de proteção individual (EPIs) exigidos.
As câmeras não registraram diretamente a retirada dos frascos de vírus dos biofreezers. No entanto, o relatório do incidente aponta que o cruzamento das gravações com registros biométricos e o desaparecimento das amostras fornece indícios sobre a retirada do material.
A Polícia Federal (PF) investiga o caso como furto qualificado por abuso de confiança. Pelo menos 24 cepas de vírusteriam saído do laboratório do Instituto de Biologia. Posteriormente, investigadores localizaram amostras em outros prédios da própria universidade.
O que mostram as imagens do laboratório da Unicamp?
As gravações mostram Michael circulando pelos laboratórios Geral, NB-2 e NB-3 em diferentes ocasiões.

Segundo a investigação, ele frequentava essas instalações durante a noite, nos fins de semana e durante o recesso acadêmico. Nesses períodos, os laboratórios ficavam praticamente vazios e sem a presença da supervisão responsável.
Além disso, as câmeras registraram Michael entrando e trabalhando no NB-3 sem utilizar os EPIs obrigatórios.
Esse tipo de laboratório adota protocolos rígidos de biossegurança para trabalhos envolvendo agentes infecciosos de maior risco. Entre os vírus mencionados no material da investigação estão dengue, chikungunya, zika, H1N1 e coronavírus humano.
As imagens também registraram Soledad circulando pelas áreas restritas NB-2 e NB-3. Segundo o processo, ela havia se desligado formalmente do grupo de pesquisa em janeiro de 2025. Por isso, a investigação classificou essas entradas como acessos não autorizados a ambientes controlados.
Câmeras registraram saída de caixas em diferentes datas
A investigação reconstruiu uma sequência de movimentações ocorridas entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026.
Em 10 de dezembro de 2025, as câmeras registraram Soledad deixando o laboratório com duas caixas de isopor.
No dia seguinte, 11 de dezembro, Michael entrou no local carregando duas caixas de isopor vazias. Depois, deixou o laboratório sem elas.
Já em 23 de dezembro, durante o recesso de fim de ano, as imagens mostraram Michael saindo do prédio com três caixas transparentes contendo materiais.
Mais tarde, em 2 de fevereiro de 2026, o doutorando entrou no laboratório com uma mochila e uma caixa de papelão. Cerca de duas horas depois, ele deixou o local levando os dois objetos.
Esses episódios ganharam relevância para a investigação porque ocorreram antes da constatação do desaparecimento das amostras.
Câmeras ficaram quase duas horas sem gravar
Outro episódio chamou a atenção dos investigadores.
Na noite de 24 de fevereiro, às 21h36, Michael entrou no laboratório carregando uma caixa de papelão.
Apenas 12 minutos depois, às 21h48, o sistema de câmeras deixou de registrar imagens. A interrupção durou quase duas horas, e as gravações retornaram somente às 23h38.
Entretanto, o sistema biométrico continuou funcionando durante esse período.
De acordo com os registros, Michael acessou várias vezes o laboratório restrito NB-3 enquanto as câmeras estavam sem gravar.
Depois que o sistema de vídeo voltou a funcionar, às 23h46, uma câmera registrou o doutorando deixando o prédio com um objeto na mão esquerda.
O material apresentado não esclarece o motivo da interrupção das câmeras nem atribui aos investigados responsabilidade pelo apagão.
Como o desaparecimento dos vírus foi descoberto?
Na manhã seguinte, 25 de fevereiro, Michael retornou ao laboratório às 7h28.
Poucos minutos depois, entre 7h33 e 7h34, ele acessou a sala onde ficavam os biofreezers. Às 7h35, deixou o laboratório com uma caixa branca de isopor, que ficou temporariamente do lado de fora.
Então, pouco mais de uma hora depois, a equipe identificou um problema.
Às 8h46, funcionários perceberam que o alarme de um biofreezer estava acionado. Ao verificarem o equipamento, constataram que caixas com amostras de vírus haviam saído dos suportes usados para armazenamento.
As câmeras, porém, não mostram alguém retirando diretamente os frascos do equipamento.
Por isso, a investigação considera o conjunto das evidências. A PF e a perícia cruzaram os horários das gravações, os registros de acesso biométrico e a constatação do desaparecimento das amostras.
Pelo menos 24 cepas de vírus teriam sido retiradas
O caso veio a público em fevereiro de 2026. Desde então, a Polícia Federal investiga as circunstâncias envolvendo a retirada do material.
Segundo a denúncia, pelo menos 24 cepas de vírus foram retiradas do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia da Unicamp.
Posteriormente, investigadores encontraram amostras em outros prédios dentro da própria universidade.
Portanto, com base nas informações apresentadas até agora, não há indicação de que as amostras tenham deixado o campus da Unicamp. A investigação busca esclarecer como ocorreu a movimentação do material e definir as responsabilidades dos envolvidos.
Por que o acesso ao laboratório NB-3 chama atenção?
Laboratórios classificados como NB-3, ou nível de biossegurança 3, seguem protocolos específicos para reduzir o risco de exposição a agentes infecciosos.
Por esse motivo, o acesso costuma ser controlado, e pesquisadores precisam seguir procedimentos de segurança e utilizar equipamentos de proteção adequados.
Nesse contexto, os registros de Michael entrando no espaço sem os EPIs exigidos se tornaram um dos pontos analisados no processo.
Além disso, os investigadores examinam os acessos realizados fora dos horários habituais e durante períodos em que havia pouca ou nenhuma supervisão no laboratório.
O que acontece agora com a investigação?
A Polícia Federal continua investigando o caso como furto qualificado por abuso de confiança.
Agora, o inquérito precisa esclarecer a sequência completa dos acontecimentos e determinar a responsabilidade de cada investigado.
As imagens constituem parte das evidências reunidas. Entretanto, como elas não registram diretamente a retirada dos frascos dos biofreezers, os investigadores também utilizam dados biométricos, registros internos e informações sobre o armazenamento das amostras.
Assim, o caso permanece sob investigação, e as conclusões definitivas dependerão da análise do conjunto das provas.






