Polícia Civil investiga rede que começaria com furtos e roubos de joias, passaria pelo derretimento do ouro e terminaria com a reinserção do metal no mercado. Operação cumpre quatro mandados de prisão e 28 de busca e apreensão.
A Justiça determinou o bloqueio de R$ 34,6 milhões durante uma operação da Polícia Civil de São Paulo contra uma rede suspeita de receptar alianças e outras joias de ouro roubadas. A Operação Ouro Reverso 2, realizada nesta segunda-feira (24), cumpre mandados na capital paulista e em Guarulhos, na Grande São Paulo.
Segundo a investigação, criminosos roubavam ou furtavam as joias nas ruas e repassavam as peças a intermediários e comerciantes. Depois, empresas ligadas ao esquema derretiam o ouro para dificultar a identificação da origem. Por fim, o grupo colocaria novamente o metal no mercado.
Além do bloqueio financeiro, a Justiça autorizou quatro mandados de prisão e 28 de busca e apreensão. A Polícia Civil também busca atingir bens e empresas que, segundo os investigadores, participariam da cadeia de receptação e lavagem de dinheiro.
Como funcionava o esquema de receptação de ouro?
A Polícia Civil dividiu a estrutura investigada em três grupos: executores, processadores e financiadores.
Os executores seriam responsáveis pelos furtos e roubos de alianças e outras joias. Segundo os investigadores, intermediários coordenavam parte dessas ações e encaminhavam os objetos para o próximo elo da cadeia.
Em seguida, entravam os processadores. Esse grupo incluiria lojistas e receptadores que recebiam as peças roubadas e realizavam o processamento inicial do material.
O derretimento do ouro teria papel central no esquema. Isso porque o processo eliminaria características que poderiam ajudar a identificar uma aliança ou outra joia roubada. Assim, os envolvidos conseguiriam transformar diferentes objetos em matéria-prima para novas peças.
Depois disso, o grupo poderia reinserir o ouro no mercado por meio de empresas e documentos fiscais, segundo a investigação.
Empresas de fachada ajudariam a lavar dinheiro
A terceira parte da estrutura envolveria os chamados financiadores.
Segundo a Polícia Civil, eles usariam empresas de fachada e depósitos fracionados para esconder a origem criminosa dos recursos e colocar o dinheiro no sistema financeiro.
Dessa forma, a investigação aponta para um ciclo: criminosos roubavam as joias, outros integrantes processavam e derretiam o ouro e, posteriormente, operadores financeiros tentavam ocultar os recursos obtidos com a comercialização.
Além disso, os investigadores acreditam que parte do dinheiro retornava para financiar novos furtos e roubos, mantendo a estrutura em funcionamento.
O que é o “círculo de fogo” investigado pela polícia?
Entre os alvos da operação está uma área do Centro de São Paulo que os investigadores chamam de “círculo de fogo”.
De acordo com a Polícia Civil, empresas localizadas nessa região comprariam joias roubadas e realizariam o derretimento do material.
A operação busca, portanto, atingir não apenas os suspeitos de executar os roubos, mas também os estabelecimentos que supostamente garantiam uma destinação comercial para os objetos.
A 3ª Delegacia de Investigações sobre Fraudes Financeiras e Econômicas, ligada à Divisão de Investigações Gerais (DIG) do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), coordena a ação.
Justiça bloqueia mais de R$ 34 milhões
A Justiça determinou o bloqueio de 13 contas bancárias, que somam exatamente R$ 34.682.364,90.
Além disso, as autoridades determinaram medidas de sequestro de bens que alcançam sete veículos e um imóvel.
A dimensão da operação também envolve diferentes órgãos. Ao todo, 60 policiais civis do Deic participam da ação com 30 viaturas.
Além dos agentes, 21 auditores da Receita Estadual e três avaliadores da Caixa Econômica Federal acompanham os trabalhos.
Os auditores verificam a situação fiscal das empresas investigadas e cruzam documentos encontrados durante a operação. Já os profissionais da Caixa avaliam e fazem a custódia de eventuais joias, objetos de valor e outros bens apreendidos.
Primeira operação encontrou R$ 2,7 milhões em ouro e joias
A Operação Ouro Reverso 2 amplia uma investigação iniciada anteriormente.
Na primeira fase, realizada em 7 de maio de 2025, a Polícia Civil cumpriu 21 mandados de busca e apreensão e uma ordem de prisão temporária.
Na ocasião, os investigadores recuperaram aproximadamente R$ 2,7 milhões em ouro e joias. Além disso, apreenderam R$ 157 mil em dinheiro.
As autoridades também cassaram três CNPJs ligados a estabelecimentos clandestinos que, segundo a investigação, realizavam o derretimento de ouro.
A primeira etapa alcançou endereços em São Paulo, Mogi das Cruzes, Ferraz de Vasconcelos, Mairiporã e Campinas.
Prisão ajudou polícia a mapear rede de receptação
Durante a primeira fase, policiais prenderam Rony Gonçalves, em Ferraz de Vasconcelos. A investigação o aponta como o principal negociador de objetos de ouro roubados dentro da estrutura investigada.
Segundo a Polícia Civil, ele integraria o esquema comandado por Suedna Barbosa Carneiro, conhecida como “Mainha do Ouro”. Os investigadores afirmam que ela dava apoio a quadrilhas envolvidas nos crimes.
A partir da análise do material apreendido, a polícia afirma que conseguiu identificar conexões entre assaltantes, comerciantes e operadores financeiros.
Assim, os investigadores ampliaram o mapeamento da estrutura e chegaram aos novos alvos da operação desta segunda-feira.
O que a segunda fase da operação busca descobrir?
Agora, a Polícia Civil concentra as investigações nos demais integrantes da cadeia. Os agentes buscam identificar principalmente lojistas, estabelecimentos usados para derreter ouro e responsáveis pelas movimentações financeiras.
Além disso, a análise das contas e dos documentos apreendidos poderá ajudar os investigadores a reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro.
O bloqueio de R$ 34,6 milhões, por sua vez, busca atingir diretamente o patrimônio relacionado aos investigados enquanto a apuração avança.
A Operação Ouro Reverso 2 tenta, dessa maneira, interromper toda a cadeia econômica que supostamente transformava alianças e joias roubadas em ouro novamente comercializável. Para a polícia, atingir os compradores, processadores e financiadores pode enfraquecer também o mercado que incentiva novos roubos.






